quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Adèle Blanc-Sec


A frase “primeiro estranha-se, depois entranha-se” aplica-se aqui, e sempre fui arredio a ler Adèle Blanc-Sec, mas agora fiquei à espera de mais um volume duplo!
Esta série foi iniciada em português pela Bertrand em 1978, publicando esta editora os primeiros quatro títulos da série. Seguiu-se a Witloof em 2003 que se ficou pelos dois primeiros… dava a ideia que a série estava encalhada para sempre. O ano passado a ASA pegou na série e iniciou a sua publicação em volumes duplos, estando editados neste momento três volumes que contêm as cinco primeiras estórias da série e foi incluído no Volume 2 o excelente “O Demónio dos Gelos”, que não pertencendo à série propriamente dita estabelece o relacionamento futuro entre algumas personagens!
Jacques Tardi nasceu em França em 1946 e iniciou a sua colaboração com a revista “Pilote” aos 23 anos de idade. Colaborou nesta altura, e nos anos seguintes, com autores do calibre de Jean Giraud (Moebius), Pierre Christin ou Léo Malet.
A génese da série Adèle Blanc-Sec é estabelecida em três trabalhos de Tardi que lhe foram predecessores:
- Adieu Brindavoine
- La Fleur au Fusil
- Le Demon des Glaces (O Demónio dos Gelos – Volume 2 ASA)
O espaço, o tempo, algumas personagens, e o horror, de Tardi, pela guerra de já estão presentes nestes três trabalhos! Passados dois anos desde a data de saída de “O Demónio dos Gelos” surge a primeira aventura de Adèle Blanc-Sec, mas pode-se dizer que Adèle “nasce” com “Adieu Brindavoine”, aliás todas as personagens principais destas estórias precedentes à série Adèle Blanc-Sec se misturam e são protagonistas no 5º livro (editado no Volume 3 da ASA e inédito em português). Todas as ideias base de Tardi estão presentes nestas estórias mais antigas, e a ASA fez uma óptima opção de incluir O Demónio dos Gelos (também uma edição inédita em português) no Volume 2. Pena que Brindavoine não tenha tido também uma edição em português, pois este fotógrafo que teve de marchar para a 1ª Grande Guerra tem um papel muito importante no 5º livro (Volume 3 da ASA).
Ainda falando de O Demónio dos Gelos, este livro tem uma arte FANTÁSTICA a preto e branco, que só por isso devia ser lido por todos os que gostam de BD. Repito… arte FANTÁSTICA!
Outro pormenor importante, das obras de Tardi, está no cenário. Pode-se dizer que o apelidado “Steampunk” nasceu aqui. Iniciado n’O Demónio dos Gelos e prosseguindo pelo resto da série, estão as sementes do Steampunk na BD. Não sei se existem outras obras precursoras do género (que eu adoro) em BD, mas as sementes estão aqui, e sobretudo em O Demónio dos Gelos, considerado por muitos como um tributo a Júlio Verne.
Falando sobre a série propriamente dita, esta conta as aventuras e desventuras de uma escritora do início do século XX, que não tem medo de bandidos, do oculto, e de manejar uma arma de fogo (e fuma e bebe!). Estão editados os seguintes livros em português:
- Adèle e o Monstro (Bertrand, Witloof e ASA [Volume1])
- O Demónio da Torre Eiffel (Bertrand, Witloof e ASA [Volume1])
- O Sábio Louco (Bertrand, Witloof e ASA [Volume2])
- Múmias Loucas (Bertrand, e ASA [Volume3])
- O Segredo da Salamandra (ASA [Volume3])
Todos estes volumes têm uma estória interligada de cariz policial em terrenos do oculto e invenções loucas. É preciso muita atenção na leitura para não nos perdermos nos muitos personagens, a maior parte vilões, visto que a trama é densa e bem trabalhada e interligada.
É engraçada a explicação de Tardi para a “morte” de Adèle durante o espaço da 1ª Guerra Mundial, bem retratada nas trincheiras francesas e na pessoa de Bridavoine, visto que a protagonista não cabe socialmente naquela época… Adèle é vigorosa, activa, capaz de beber um copo e ainda por cima fuma! Ou seja, o único papel para Adèle naquela época seria fazer parte do exército que combatia os alemães… ora isto não seria possível! Por Adèle a fazer de enfermeira nos campos de batalha, ou a enrolar ligaduras em casa, não faria parte da sua maneira de ser… assim Tardi deu-lhe um maravilhoso sumiço, sem apagar a sua existência preservada numa “câmara criogénica” depois de ser morta pela vilã Clara Bernhardt (LOL)! Brindavoine tem o seu papel principal, ao ser o instrumento da “ressurreição” de Adèle a seguir à 1ª Grande Guerra!
São boas estórias, a tradução da ASA é bastante mais clara que as antecedentes, deixando uma leitura mais fácil para quem conhecer esta série.
A minha pecha inicial com Adèle Blanc-Sec foi precisamente a arte… não é fácil gostar de início deste estilo de Tardi, mas… como disse no início “primeiro estranha-se, depois entranha-se”!
A página a preto e branco apresentada neste post pertence ao Demónio dos Gelos.

Boas leituras!

Hardcover
Criado por: Jacques Tardi
Editado entre 2010 e 2011 pela ASA
Nota : 8,5 em 10
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