sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Palavra dos Outros: Warren Ellis por Paulo Costa



Hoje Paulo Costa traz-nos um autor: Warren Ellis.
Este argumentista inglês influenciou bastante os comics norte-americanos, e porque não dizê-lo, foi visionário na abordagem ao tema super-heróis com Planetary e Authority. Poderão ler as minhas críticas clicando nos links atrás mencionados.
O título do texto é "Futuros que Nunca Foram" e penso que Paulo Costa acertou em cheio. Warren Ellis é um verdadeiro criador de mundos novos que nunca existiram!
Fiquem com as palavras de Paulo Costa:


Futuros que Nunca Foram

Descobri Warren Ellis nas revistas da Marvel no tempo da Editora Abril/Controljornal, com algumas histórias dos Excalibur e o crossover em que Doom 2099 conquista os Estados Unidos, mas só comecei a prestar-lhe atenção um ou dois anos depois, quando comecei a ler revistas em inglês. Por coincidência, foi na mesma altura que vi um anúncio na Wizard sobre a revista Transmetropolitan, sobre um jornalista de investigação, Spider Jerusalmen, num futuro próximo onde as “information clouds” são moveis e servem para guardar consciências e não informações, onde híbridos alien/humanos andam na rua, e onde gatos de duas cabeças gostam de fumar. O verdadeiro comentário, no entanto, dizia respeito à política, nomeadamente as diferenças entre os Republicanos e os Democratas e a futilidade de um sistema de divisão rotativista de poder disfarçado de democracia.

Ao mesmo tempo, Ellis redefinia o conceito de super-herói nas páginas de “Stormwatch”, que atingiu o zénite quando a revista passou a chamar-se “The Authority”. Mas este é um tema que quero desenvolver noutra oportunidade. Nesta fase, em que escreveu durante vários anos para os escritórios californianos da DC Comics (a extinta editora WildStorm), Ellis fez vários comentários sobre tecnologia, globalização, governação e cultura pop.
Mais recentemente, o escritor inglês fez da Avatar Press a sua casa, começando com uma série de mini-séries de terror com uma roupagem de aventura militar, denominadas “Strange Kisses” e “Strange Killings”, depois reformatadas como “Gravel”. Estas nunca me chamaram muito a atenção, ao contrário de outras séries mais dentro da temática de ficção científica.

Em 2009, Warren Ellis e o artista italiano Gianluca Pagliarini criaram a mini-série “Ignition City”. A história é uma homenagem a vários heróis de estilo pulp, oriundos da literatura, do cinema e da banda desenhada, que tinham a exploração espacial como tema comum. Muitas personagens são claramente inspiradas em Buck Rogers, Flash Gordon, Dan Dare, nos barsoomianos de Edgar Rice Burroughs ou os Lensmen de E.E. Smith (Ellis já tinha brincado com esta ideia em “Ministry of Space”. A personagem principal é a filha de Dan Dare. A história não é nada apologética, reconhecendo perfeitamente que muitas das histórias de exploração espacial são na verdade westerns disfarçados, e usando isso como ponto de partida: em 1956, o que sobra do programa espacial terrestre é uma cidade de fronteira, prestes a ser abandonada. Também há espaço para focar a inexistência de minorias étnicas em aventuras espaciais, dando algum destaque a duas personagens (um negro e um irlandês) que supostamente seriam os maquinistas da nave de Flash Gordon, bem como reconhecendo que Hans Zarkov é judeu.

Mais recentemente, Ellis e o seu colaborador na série “Gravel”, Raulo Cáceres, voltaram a trabalhar juntos em “Captain Swing and the Electric Pirates of Cindery Island”. A arquitectura gótica e a localização temporal da história na Era Vitoriana parecem indicar que é um conto de steampunk, mas Ellis faz batota. Steampunk é um género onde a máquina a vapor suplantou a electricidade como forma preferida de gerar energia (dando origens a máquinas gigantes como a aranha do Dr. Loveless no filme “Wild Wild West”), mas aqui o cientista anarquista John Rheinhardt usa electricidade, criando lâmpadas incandescentes décadas antes de Thomas Edison e até usando energia eléctrica para criar uma máquina anti-gravidade. A história, contada do ponto de vista de um polícia de rua, critica o uso de poderes estatais a níveis intermédios para impedir o desenvolvimento científico pelas mãos de privados, bem como o acesso da população a uma forma de vida facilitada por novos aparelhos. Também tem tempo para falar de uma das minhas lendas urbanas preferidas, Springheel Jack.

Warren Ellis é o tipo de escritor com que se pode sempre contar. Prolífico, consegue falar de várias coisas ao mesmo tempo e tem sempre algo de novo para oferecer a públicos diferentes.



Onde ler:
Transmetropolitan Vol. 1-10 (DC/Vertigo)
Ministry of Space (Image)
Global Frequency Vol. 1-2 (DC/WildStorm)
Ignition City (Avatar)
Captain Swing and the Electric Pirates of Cindery Island (Avatar)

Texto: Paulo Costa

Só falta referir da Avatar Press a série Freakangels e Anna Mercury!
O meu obrigado ao Paulo por mais este texto! A rubrica "A Palavra dos Outros" tem tido sucesso, o que me deixa feliz, e espero que para além daqueles que já contribuíram, mais gente reúna "coragem" para enviar os seus textos!

Boas leituras

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