segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Camões: Sua Vida Aventurosa


Quero fazer aqui uma homenagem a um dos maiores desenhadores/ilustradores/pintores portugueses.
E vou servir-me de uma edição que a nível nacional nunca deve ter tido paralelo. Camões – Sua Vida Aventurosa teve direito a uma colecção de cromos (que eu fiz há quatro décadas…), um livro de Banda Desenhada a Preto & Branco (numa edição especial do Mundo de Aventuras) e a um livro super luxuoso com caixa, papel brilhante de altíssima gramagem com as ilustrações mais emblemáticas (e coloridas) da colecção de cromos. Isto foi inédito, e que eu saiba único em Portugal.
Estávamos em 1972!


Uma das razões pela qual eu estou a fazer este post, é porque os blogues mais conhecidos pela sua nostalgia e recuperação de autores antigos praticamente não os vejo falar de DEUS. Falam sempre dos mesmo históricos e “mestres”, sempre os mesmos…
E aqui DEUS é Carlos Alberto.

As belas mulheres de Camões retratadas por Carlos Alberto dos Santos

Este sim foi um fora de série, este sim esteve bem à frente de todos os “históricos”. Tão à frente que a maior parte dos seus trabalhos estão em colecções privadas no estrangeiro, muito pouco conhecido em Portugal… somo bons a reconhecer os nossos melhores… Não, este senhor não vai a Tertúlias, festivais e encontros (está muito velhinho…), mas porque não vai não tem de ser ignorado.


Carlos Alberto dos Santos é especial por uma razão muito simples. Consegue aliar uma enorme qualidade de desenho, a um enorme conhecimento de pintura. Os cromos que ele fez para a APR (Agência Portuguesa de Revistas) são autênticas pinturas! Estáticas, sim. Afinal era uma colecção de cromos!
Mas quando passamos para o livro de Banda Desenhada ele demonstra dinamismo, capacidade de narrativa gráfica, boa construção da página e até, vejam lá, numa vinheta parece ter as linhas de velocidade do Manga! Claro, ténue, mas o dinamismo que ele coloca nas suas páginas não tem igual para a época.
























E porque não falar do domínio do Preto & Branco?
Muito bom. Os seus “claro-escuro” estão muito bem colocados de maneira a darem profundidade, tanto gráfica como emocional.
Esta técnica tem alguns excelentes apontamentos em algumas vinhetas, e com aquela qualidade só as vi em grandes mestres estrangeiros.


E tem outro pormenor interessante para a época… Carlos Alberto dos Santos usava argumentistas! No caso deste livro foi Oliveira Cosme. Ou seja, saiu daquele registo da época de que o desenhador é o argumentista, o que é de louvar!
Porque não dizer… já na Zakarella (criação deste desenhador), não era ele que escrevia os contos! Era o prolífico Roussado Pinto, sob o pseudónimo “Ross Pynn”. Carlos Alberto apenas desenhava e pintava, era aí que residia a sua excelência. Resistiu perfeitamente a ser o argumentista das suas histórias.

As imagens apresentadas neste post pertencem aos dois livros publicados Camões – Sua Vida Aventurosa. As Preto & Branco pertencem ao livro de Banda desenhada, as coloridas ao mini-Absolute editado pela APR com o mesmo nome. Neste livro de luxo podem encontrar um texto/história de Oliveira Cosme e as ilustrações de Carlos Alberto algumas feitas para a colecção de cromos, mas aqui em ponto grande!

Esta série de publicações saiu para a comemoração do 4º Centenário da obra máxima de poesia, “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões.
Aliás, a colecção de cromos fascinou-me para a vida do poeta. Ficou impressa na minha memória de uma forma indelével.
Infelizmente a caderneta perdeu-se, mas com o tempo consegui em alfarrabistas aquilo para o qual eu não tinha dinheiro em criança: estes dois magníficos livros.

A história do considerado maior poeta da Língua Portuguesa é apresentada desde a sua adolescência, até à publicação do grande livro da poesia portuguesa, Os Lusíadas (1572). Claro, até também à sua morte que aconteceu pouco depois da publicação do livro.

Oliveira Cosme e Carlos Alberto trazem um Camões bem caracterizado na sua alcunha, o “Trinca-Fortes”, mostrando o poeta sensível, mas também o seu carácter belicoso muito bem desenvolvido. Estas duas facetas provocaram muitas invejas e inimigos…

Inimigos estes que fizeram a vida do poeta num inferno. Desterrado para as colonias, ele foi guerreiro, pedinte, sacrificado e herói. Mas sempre poeta!
O argumento de Oliveira Cosme na sua essência não é mau. O problema é mesmo o registo do português usado, e a sua “entoação”, por vezes bastante arcaico e sem necessidade disso… que raio, já estávamos nos anos 70!


Da parte gráfica… já disse tudo o que tinha dizer.
NUNCA se esqueçam deste MESTRE da Banda Desenhada e ilustração em Portugal.
Foi DEUS!
A imagem de topo é composta pela contracapa e capa do livro de BD, e imagem aqui por baixo é da caixa (slipcase) do livro ilustrado (ambos os lados da caixa).
A imagem final... é o retrato do fim da vida de Camões... extraordinariamente bem captado por Carlos "Deus" Alberto dos Santos.



Boas leituras

Revista/Slipcased Hardcover/Colecção de Cromos
Criado por: Oliveira Cosme e Carlos Alberto dos Santos
Publicado em 1972 pela APR
Nota: 10 em 10 no conjunto das três publicações (estou a contar com a colecção de cromos).
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